Serra do Amazonas é alvo de incursão inédita de pesquisadores brasileiros
A expedição vai investigar a biodiversidade da região
Foto: Divulgação
Cerca de 16 pesquisadores brasileiros iniciaram, nesta segunda-feira (24), uma incursão científica inédita na Serra do Acará, localizada no norte do estado do Amazonas. A expedição, considerada a maior e mais complexa já realizada na região, vai investigar a biodiversidade dos platôs de altitude da montanha, área de difícil acesso e próxima à fronteira com a Venezuela. As informações são da Agência Fapesp, em reportagem de Elton Alisson.
Localizada em uma região com altitudes entre 1.300 e 1.700 metros, a Serra do Aracá abriga ecossistemas considerados únicos e que podem reunir espécies ainda desconhecidas pela ciência. O trabalho de campo terá duração prevista de três semanas e será acompanhado pela equipe da Agência Fapesp, na reportagem de Elton Alisson.
A missão é a terceira e última etapa de um projeto de mapeamento da biodiversidade das terras altas da Amazônia brasileira, financiado pela Fapesp com apoio do Exército Brasileiro. Antes do Aracá, os pesquisadores estiveram no Pico da Neblina, em 2017, e na Serra do Imeri, em 2022.
Segundo Miguel Trefaut Rodrigues, professor emérito do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e líder da expedição, o isolamento e a dificuldade de acesso fazem com que a biodiversidade dos topos dessas montanhas seja muito menos conhecida que a das áreas baixas da Amazônia.
“Até então, grupos pequenos de botânicos e zoólogos coletaram plantas e animais na Serra do Aracá, mas ninguém chegou a áreas tão isoladas como as que vamos adentrar”, afirmou o pesquisador à Agência Fapesp.
Montanhas como “ilhas” na Amazônia
A Serra do Aracá integra o complexo de montanhas Tulu-Tuloi e é formada por platôs conhecidos como tepuis. Para os pesquisadores, essas formações funcionam como verdadeiras “ilhas de pedra” cercadas pela floresta, criando condições para o surgimento e a preservação de espécies endêmicas.
Expedições anteriores ajudam a explicar a expectativa em torno da nova missão. No Pico da Neblina, os cientistas identificaram duas novas famílias de sapos e espécies inéditas de lagartos. Na Serra do Imeri, encontraram uma nova espécie de ave, além de novas espécies de sapos e um gênero de caranguejo de água doce.
A Serra do Aracá está em uma posição estratégica para a pesquisa por ficar no limite entre duas grandes províncias dos tepuis sul-americanos: uma associada à região leste, próxima ao Monte Roraima, e outra ligada ao oeste, onde está o Pico da Neblina. Os pesquisadores ainda não sabem quais padrões de biodiversidade encontrarão no local.
Pesquisa terá uso de DNA ambiental
A equipe reúne especialistas em botânica, palinologia, herpetologia, ornitologia, mastozoologia, invertebrados e parasitologia. Além dos métodos tradicionais de coleta, serão utilizadas técnicas de DNA ambiental (eDNA), capazes de identificar material genético de organismos presente em amostras de solo e água.
A tecnologia poderá revelar espécies que não sejam capturadas diretamente pelos pesquisadores e também ajudar na identificação de microrganismos, vírus e bactérias presentes no ambiente.
Os cientistas ainda pretendem coletar amostras de sangue e parasitas dos animais encontrados, instalar gravadores para registrar vocalizações e realizar análises genéticas diretamente no campo.
O transporte da equipe será feito de helicóptero pelo Exército Brasileiro, a partir de uma base em Barcelos, no rio Negro, localizada a cerca de 220 quilômetros do acampamento. A pesquisa será realizada no Parque Estadual da Serra do Aracá, unidade de conservação criada em 1990 com aproximadamente 1,8 milhão de hectares.
Peças de um quebra-cabeça evolutivo
Além de descobrir novas espécies, os pesquisadores querem compreender como a biodiversidade das montanhas amazônicas se formou e evoluiu ao longo de milhões de anos.
A comparação entre as amostras coletadas no Aracá, no Pico da Neblina e no Imeri poderá ajudar a reconstruir a história biogeográfica dessas montanhas e a entender como mudanças climáticas e isolamento geográfico influenciaram a evolução das espécies.
Para Trefaut, os tepuis amazônicos são, ao mesmo tempo, “berços” e “museus” de espécies, já que abrigam organismos que podem ter evoluído de forma independente durante longos períodos de isolamento.
A expectativa dos pesquisadores é que a expedição amplie o conhecimento sobre uma das regiões mais remotas da Amazônia e revele novas informações sobre a diversidade biológica e a história evolutiva das montanhas do norte do Amazonas.
Leia a reportagem original da Agência Fapes.
