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Queimadas no Amazonas se concentram em propriedades rurais privadas

Levantamento do Inpe revela que 8 em cada 10 focos de fogo registrados em outubro ocorreram em imóveis rurais cadastrados; autoridades investigam incêndios criminosos que agravam a crise ambiental no estado

21/10/2026 09h38 Por: BNC Amazonas
Queimadas no Amazonas se concentram em propriedades rurais privadas

Foto: Vinícius Mendonça/Ibama

Uma análise exclusiva do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), realizada a pedido do g1, revela que oito em cada dez focos de fogo registrados no Amazonas, na primeira quinzena de outubro, estão localizados em propriedades rurais privadas com Cadastro Ambiental Rural (CAR).

 

Entre os dias 1º e 15 de outubro, o satélite de referência do Inpe identificou 1.639 focos de calor no estado. Desse total, 79,1% foram detectados dentro de imóveis rurais cadastrados, indicando uma forte concentração das queimadas em áreas particulares.

 

Os números reforçam a preocupação das autoridades ambientais com o uso irregular do fogo, em meio à crise que vem provocando incêndios de grandes proporções e espalhando fumaça por diversos municípios amazonenses, incluindo Manaus.

 

Segundo dados do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), o número de focos de calor no entorno da capital amazonense, no acumulado do ano, está 109% acima da média histórica para o mesmo período.

 

Explosão das queimadas começou em outubro

 

O levantamento do Ipam mostra que os focos começaram a aumentar em setembro, passaram por um período de redução e voltaram a crescer de maneira expressiva a partir de 4 de outubro, data do primeiro turno das eleições.

 

A coincidência entre a intensificação das queimadas e o calendário eleitoral também entrou no radar das autoridades responsáveis pelas investigações.

 

O presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Jair Schmitt, afirmou que há suspeitas de que criminosos estejam aproveitando a crise ambiental e o momento político para ampliar os incêndios.

 

“Como tem muito incêndio, as pessoas vão colocando fogo, ampliando o problema até pela dificuldade que se pode ter em um momento de crise como esse de identificar o crime”, explicou.

 

Segundo Schmitt, uma das hipóteses consideradas pelas autoridades é a utilização do cenário político para provocar ainda mais instabilidade.

 

Fogo sem autorização é ilegal

 

Embora o Cadastro Ambiental Rural identifique os imóveis onde estão concentrados os focos, a localização das ocorrências não significa, por si só, que os proprietários sejam responsáveis pelos incêndios.

 

Entretanto, o uso do fogo para atividades de manejo do solo, como limpeza de pastagens, depende de autorização específica do órgão ambiental competente.

 

Desde 9 de setembro, o governo do Amazonas proibiu o uso do fogo no estado. Mesmo com a restrição, os incêndios continuaram avançando.

 

A situação é agravada pela estiagem associada ao fenômeno El Niño, que favorece o ressecamento da vegetação e facilita a propagação das chamas.

 

As autoridades ambientais sustentam que a ação humana está na origem de grande parte dos incêndios, enquanto as condições climáticas contribuem para sua expansão.

 

Ibama aplica R$ 2 milhões em multas

 

Durante operações de combate aos incêndios, equipes do Ibama identificaram garrafas contendo combustível sendo lançadas ao longo de estradas, indício de possíveis ações deliberadas para provocar queimadas.

 

Conforme as informações divulgadas pelo g1, o órgão ambiental aplicou R$ 2 milhões em multas desde a semana anterior ao levantamento.

 

As suspeitas de incêndios criminosos também são investigadas pela Polícia Federal e pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

 

A Polícia Civil do Amazonas informou que já foram instaurados mais de 120 procedimentos criminais relacionados ao uso ilegal do fogo.

 

Mais de 83% dos focos estão em áreas desmatadas

 

Outro dado relevante do levantamento é que a maior parte dos focos não ocorre diretamente em áreas de floresta preservada, mas em terrenos que passaram por processos de desmatamento.

 

De acordo com informações da plataforma TerraBrasilis, do Inpe, a distribuição dos focos de outubro por tipo de cobertura e uso do solo apresenta o seguinte cenário:

 

  • 52,8% em áreas desmatadas nos últimos três anos;
  • 30,6% em terrenos abertos há mais tempo;
  • 15,9% em áreas de vegetação nativa.

 

Somadas, as duas primeiras categorias representam 83,4% dos focos identificados.

 

Os números ajudam a explicar por que o Amazonas enfrenta uma grave crise de queimadas mesmo diante da redução recente dos índices de desmatamento.

 

Segundo o Inpe, o desmatamento registrado entre agosto de 2025 e julho de 2026 foi de 3.335 quilômetros quadrados, o menor índice desde 1988, conforme os dados apresentados na reportagem.

 

Apesar da redução, as áreas desmatadas em anos anteriores continuam vulneráveis ao fogo, especialmente durante períodos prolongados de seca.

 

Crise expõe desafio da fiscalização

 

A concentração dos focos em propriedades privadas amplia a pressão por fiscalização mais rigorosa do uso do fogo no Amazonas.

 

Os dados também evidenciam que a redução do desmatamento, embora importante para a preservação da floresta, não elimina o risco de incêndios em áreas anteriormente abertas para atividades econômicas.

 

Enquanto as investigações buscam identificar os responsáveis, a população amazonense continua enfrentando as consequências da fumaça, da deterioração da qualidade do ar e dos riscos à saúde pública.

 

O levantamento reforça a necessidade de ações permanentes de prevenção, fiscalização e responsabilização dos envolvidos em queimadas ilegais.

 

Com informações do g1 e com dados do Inpe, Ipam, Ibama e órgãos de investigação.