Da arena à universidade: Ádria Barbosa defende mestrado sobre mulheres negras no Boi-Bumbá de Parintins
Pesquisa desenvolvida na Unesp investiga as transformações na representação da mulher negra e da personagem Catirina no Festival de Parintins
Foto: Divulgação
Da experiência vivida na arena do Bumbódromo para a pesquisa acadêmica. A jornalista e pesquisadora Ádria Barbosa defendeu na última terça-feira (29), seu mestrado em Comunicação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), campus de Bauru, com uma pesquisa que lança um olhar sobre a presença, a resistência e o protagonismo de mulheres negras no Festival Folclórico de Parintins.
Intitulada “Comunicação e Cultura: as (re)existências de mulheres negras no Auto do Boi-Bumbá de Parintins”, a dissertação nasceu da própria trajetória de Ádria como Mãe Catirina do Boi Caprichoso, personagem que interpreta desde 2017. A vivência na cultura popular tornou-se ponto de partida para uma investigação sobre como a presença de personagens negros no Auto do Boi vem transformando formas de representação e pertencimento da negritude na festa.

“Eu saio desse lugar de apenas brincante, eu me coloco como essa mulher negra pesquisadora e eu trago essa vivência no Festival de Parintins para a universidade”, afirmou Ádria Barbosa.
A pesquisa percorre o período de 2015 a 2025 e recupera aspectos da história negra do Boi-Bumbá, especialmente a participação de personagens como Pai Francisco e Catirina. Segundo a pesquisadora, com a transformação do Festival em um grande espetáculo, parte dessa origem foi sendo apagada ou colocada em segundo plano.
Nesse percurso, Ádria também resgata a trajetória de Filomena de Souza, mulher negra apontada em sua pesquisa como responsável por trazer o primeiro boi-bumbá de Parintins, o Boi Turuna — nome que significa “negro poderoso”. A ausência de registros visuais e o apagamento de sua trajetória são apresentados como exemplos da necessidade de recuperar histórias e personagens negros que ajudaram a construir a cultura popular do município.
Da caricatura ao pertencimento
Um dos pontos centrais da dissertação é a transformação da representação da Catirina. Tradicionalmente apresentada como personagem caricata, associada ao humor e frequentemente representada por meio do blackface, a personagem passou por mudanças na última década.
Ádria destaca que, a partir de sua entrada no Boi Caprichoso e do movimento construído também por outras mulheres, começou a surgir um questionamento sobre a necessidade de pintar de preto uma personagem que poderia ser interpretada por uma mulher negra.

A partir dessa mudança, a Catirina passa a ser observada não apenas como figura tradicional do folclore, mas como espaço de representação da identidade negra, da presença feminina e do pertencimento cultural.
A pesquisa também reconhece a trajetória de mulheres que interpretaram a Catirina no Boi Garantido, como Rogely Ferreira, Mara Souza e Lara Monteverde. Para Ádria, essas histórias se conectam e ajudam a abrir caminhos para novas gerações.
Uma pesquisa que nasce da vivência
Ao longo da dissertação, Ádria aproxima comunicação, cultura popular, relações raciais e gênero para discutir quem tem o direito de contar determinadas histórias e como mulheres negras podem deixar de ser apenas objetos de representação para assumirem o lugar de narradoras de suas próprias trajetórias.
Para Ádria, ainda há caminho a percorrer, mas as transformações já revelam uma mudança importante na forma como a negritude vem ocupando espaço dentro do Festival.
“A gente ainda está em busca desse protagonismo, mas há um deslocamento dessa imagem caricata da Catirina para uma negritude que vem ali emergindo de uma forma muito forte e de um pertencimento hoje na festa do Boi-Bumbá", finaliza.
