Amazonenses na França relatam clima de tensão e medo após protestos violentos
Moradoras do país descrevem episódios de violência, saques e destruição e demonstram preocupação com os desdobramentos das manifestações
Foto: JEFF PACHOUD / AFP
Os violentos protestos que eclodiram na França – e especialmente em Paris – no último fim de semana causaram prejuízos milionários que ainda estão sendo calculados pelas autoridades. Saques e protestos violentos aconteceram em várias cidades do país. A CRÍTICA conversou com algumas amazonenses que residem na França para saber como está o clima de tensão por lá.
Morando há 11 anos em Paris e trabalhando como guia turístico para brasileiros que visitam a França, Sammya Cury acredita que o pior já passou e que a ação enérgica do governo vai conter os ânimos mais acirrados.
“Na realidade sou guia de turismo aqui. E os meus clientes estão preocupados. Mas acho que agora os protestos com esse nível de destruição vão parar porque o governo vai agir com a polícia de forma severa. Então não vai ter mais protestos nesse nível do último sábado. Está tendo um toque de recolher todas as noites. Então eles pararam”, relata Sammya.
A profissional de turismo explica que os protestos violentos não chegaram a alterar muito sua rotina. “A rotina não foi alterada porque eu trabalhei nesse dia em Versalhes. Mas quando voltei pra casa, aí sim, as ruas estavam todas fechadas pela polícia”, conta.

Sammya Cury trabalha com turismo e mora há 11 anos na França. Foto: Arquivo Pessoal
Segundo Sammya, os clientes não cancelaram os compromissos porque ela tem argumentado que o pior já passou, mas eles têm demonstrado preocupação. “Não acho que os protestos já terminaram, mas com o quebra-quebra eles não vão mais fazer”, opina.
A amazonense conta que os “gilets jaunes” – os “coletes amarelos”, grupo que desde 2018 realiza protestos na França – estão articulando novos protestos, mas sem os “casseurs”, que são os grupos que promovem quebra-quebras e saques durante as manifestações.

Foto: Firas Abdullah/Anadolu
MEDO
A também manauara Rebeca Fonseca conta que fica receosa quando seu sai para ir à escola. “Meu filho está no primeiro ano do ensino médio e tenho medo quando ele vai para escola quando tem manifestação pq ele pega ônibus pra chegar na escola, e como ele não participa desse tipo de protesto e vai direto pra aula, confesso que tenho medo”, diz.
Rebeca, que mora há 9 anos na França e trabalha como engenheira, acredita que pessoas mal intencionadas infiltradas em um movimento que teve início com estudantes reivindicando melhorias nas escolas, são as responsáveis pela violência, incêndios e saques durantes os protestos.
“Exato, eles lutam por isso mesmo. Mas tem tanta gente mal intencionada no meio que acaba sendo sem sentido a causa”, afirma Rebeca, que mora em Langeais, uma pequena comuna francesa na região administrativa do Centro-Vale do Loire e, por isso, diz que não sentiu muito os efeitos dos protestos.

Rebeca Fonseca, 35 anos, mora há 9 anos na França (chegou em 2017). Foto: Arquivo Pessoal
“Como moro em cidade pequena, não tivemos tantos problemas na escola do meu filho. Mas na cidade grande mais próxima, Tours, tiveram vários conflitos, pessoas que destruíram comércios e agrediram pessoas nas ruas. O que no começo eram só os estudantes reivindicando menos horas de estudos durante o dia, passou a ser quebradeira de gente que nem estava na escola. Estão mesmo manifestando em horário fora do programado”, relata a engenheira.
Rebeca conta que alguns comerciantes da sua área saíram com um prejuízo muito grande. “Eu ouvi falar de uma de uma senhora que tinha acabado de abrir a padaria dela. Ela reformou tudo e estava com 15 dias que estava aberta a padaria. Quebraram tudo lá dentro. Quebraram joalheria, roubaram empresa de eletrodomésticos, de computador, de telefone de até bar que não tinha nada, de uma pobrezinha asiática que tinha o bar lá no centro de Paris entraram e quebraram tudo”, conta.
Para Rebeca, trata-se de uma cadeia de desgraças causadas pelos protestos.
“Nessas horas é bom trabalhar pra alguém pq você não tem prejuízo, mas as pequenas empresas vão talvez ter que fechar as portas, e esse povo vai viver de ajuda do governo até encontrar outro trabalho”.Rebeca Fonseca, amazonense mora há 9 anos na França.
Implicações políticas
A carioca Maíra Guarabyra, que morou em Manaus seis anos antes de se mudar para a França, explica que os efeitos dos protestos não se sentem em toda a cidade. “Algumas áreas são caóticas. Mas é em algumas áreas, não é na cidade toda”, diz.
Maíra tem uma opinião peculiar sobre as implicações políticas da onda de protestos. “O que é preocupante é o comentário das pessoas aqui, tipo bolsonaristas”, diz.

Para Maíra Guarabyra, há uma espécie de conspiração de extrema direita por trás dos protestos. Foto: Arquivo Pessoal
“A gente já viu tudo isso acontecer. A polícia está botando gente vestida de black block pra quebrar coisa, pra incitar violência, pra poder gastar aquele gás em cima da galera, sabe? Como a gente já viu tantas vezes acontecer. E o pessoal está caindo na armadilha e está dando munição para a extrema direita”, pontua
“É a direita subindo em tudo quanto é canto, com os bilionários da internet por trás, é bem opressor mesmo. E eu tenho quase certeza que a Marine Le Pen deve ganhar a próxima aqui, a não ser que haja uma insurgência, uma campanha tipo essa agora no Brasil com o Janones. A extrema direita vai pegar o poder aqui que ela está bem instrumentalizando esses protestos.”, opina.
